Academic Article · 1974
Virola theiodora como alucinógena e tóxica
A short Brazilian natural-products chemistry article confirming the double use of Virola theiodora bark in Yomanê hallucinogenic snuff and arrow poison from the Tototobi River region of Roraima.
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J. G. SOARES MAIA ( • ) WILLIAM A. RODRIGUES ( • ) Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
SINOPSE primeira a mais importante pelo seu duplo emprego, isto é, como psicotrópico e como Comprova-se por análise cromatográfica (CCD) veneno de flechas. e espectrometrias no infravermelho (IV) e no ul- travioleta (UV) o duplo emprego da casca de Virola Schultes & Holmstedt (1971) e Prance tbeiodora (Spruce ex Benth.) Warb. (Myristica- (1970) que testemunharam o preparo de fle- ceae) no preparo de rapé alucinogênico e envene- namento de flechas, pelos índios Y::>manê, da re- chas envenenadas entre os índios Waiká do gião do rio Tototobi, Território Federal de Rorai- rio Tototobi, observaram que somente V. theio- ma. dora é usada, embora Biocca citado por Schul- tes & Holmstedt (1971) aponte a prática da mistura de curare à resina de Viro/a por ou- INTRODUÇÃO tros grupos da mesma tribo no preparo dessas flechas. Prance (1970 e 1972b) observa que os Visa o presente trabalho reconhecer e princípios ativos que poderiam produzir efei- comprovar quimicamente por comparação com fragmentos de herbário a semelhança de subs- tos tóxicos nas flechas ainda não estão bem tâncias psicoativas e tóxicas (triptaminas) em definidos e que sua ação é bem mais lenta que rapé e flechas envenenadas, preparadas pe- a do curare e a do veneno obtido de outras los índios Yomanê da região do rio Tototobi. plantas como a morácea Naucleopsis mello- Território de Roraima, com as que existem na barretoi. C. C. Berg. Schultes (1969b) aponta casca de Viro/a theiodora (Spruce ex Benth.) que a resina pura de V. theiodora chega a con- Warb. (Miristicácea). ter 8% de 5-Metoxi-N, N- dimetiltriptamina, um psicoativo altamente eficaz. Schultes (1954, 1969a, 1969b e 1970), Schultes & Holmstedt (1968 e 1971), Agurell Existem diferentes tipos de rapé, varian- et alii (1969), Prance (1970, 1972a e 1972b) e do de acordo com o modo de preparo. Há os outros que discutem amplamente o costume que são usados sem mistura e outros onde en- indígena de se usar a resina da casca de al- tram adicionantes como o pó da folha de Jus- gumas espécies de Viro/a para fins alucino- ticia pectoralis Jacq. (Acantácea) como aroma- gênicos e mesmo envenenamento de flechas , tizante ou as cinzas de Elizabetha princips informam estar este hábito arraigado exclusi- Schomb. ex Bth. (Leguminosa) e provavelmen- vamente aos índios que habitam vasta área te outras plantas como citam Schultes (1969a do noroeste amazônico, incluindo o Brasil e e 1970) e Prance (1972a e 1972b), com a fina- as regiões adjacentes da Colômbia e Vene- lidade provavelmente de reduzir o seu efeito zuela. tóxico.
Schultes (1970) reconhece pelo menos Agurell et alii (1969) analisando duas três espécies de Viro/a como as mais procu- amostras de rapé de procedência e modo de radas pelos índios : V. theiodora no Brasil e preparo diferentes, verificaram que a concen- Venezuela, V. ca/ophylla Warb e V. calophylloi- tração de alcalóides no rapé baixa de 1/10 em dea Markf. na Colômbia, sendo, no entanto, a relação ao puro, ou seja, aquele obtido unica-
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mente de V. theiodora, e que este último pro- deral de Roraima, e fragmentos de casca de vou conter nada menos que 11% de alca lói- vários espécimes de Viro/a incorporados no des. herbário do INPA: V. theiodora: Prance, 9607 V. theiodora é conhecida pelos índios (INPA, 26744); Prance, 10125 (INPA, 27257); Yomanê como yakohana ou yakohana-hi. Ou- Prance, 20025 (INPA, N . Y.) . V. calophylla tros nomes citados na literatura para a mes- (A. DC.) Warb.: INPA, 42214. V. rufula Warb.: ma espécie e espécies afins (V. e/ongata = V. INPA, 42227. V. caducifolia W. Rodr. n. sp.: cuspidata e V. rufu/a) são: nyakwana, jakuana, INPA, 42232. V. venosa (Bth.) Warb.: INPA, epená, paricá, shomiá, machfara-a, tchkiana, 42241 . ucufe-ey, ra-se-né-mee, tsu-nem e yakee. Elaboraram-se extratos benzênicos e eta- MATERIAL E MÉTODOS nó licos da resina extraída de cada uma das pontas de flechas, do pó e dos fragmentos de Usaram-se para análise nos laboratórios casca dos espécimes de Viro/a . de química de produtos naturais do INPA, 5 pontas de flechas empregnadas com resina e Compararam-se por cromatografia em ca- cerca de 5 g de um pó avermelhado, ambos mada delgada (CCD), espectrometria no infra- de origem vegeta l , colhidos dos índios Yoma- vermelho (IV) e espectrometria no ultravio· nê da região do rio Tototobi , no Território Fe- leta (UV) .
REsULTADos
Quadro 1 . CCD dos extratos benzênicos da re- Quadro 3. Espectros no IV dos extratos ben· sina das flechas e rapé dos índios zênicos e etanólicos da resina das Yomanê e de fragmentos de casca flechas e rapé dos índios Yomanê e de V . theiodora: Prance, 9607, 10125 de fragmentos de casca de V. theio. e 20025. dora: Prance, 9607, 10125 e 20025. Si02, benzeno - acetona, 8 : 2
extrato benzênico : y KBr (cm-1) 3350, 2900, 2F-30, V. theiodoro resina dos flechas rapé (ou p6) max Rf Rf Rf 2675, 1720, 1640, 1510, 1460, 1380, 1280, 1130, 1050, 980, 810 e 760. 0,82 (1 , vapores) 0,82 (1 , vapores) 0,82 (1 , vapores) 2 2 2 0,72 (UV, azul) 0,72 (UV, azul) 0,72 (UV, a;~;ul) KBr (cm-1) 3350, 2900, 2830. 0,65 (1 , vapores) 0,65 (1 , vapores) 0,65 (1 , vapores) extrato etanólico: y max 2 2 2 0,42 (1 , vapores) 0,42 (1 , vapores) 0,42 (1 , vapores) 2 2675, 1720, 1670, 1510, 1450, 2 2 0,00 o 0,36 (12, 0,00 o 0,36 (12, 0,00 o 0,36 (12, 1380, 1280, 1210, 1130, 1080. vapores) vapores) vapores) 930, 880 e 810.
Quadro 2. CCD dos extratos etanólicos da re- sina das flechas e rapé dos índios Quadro 4. Espectros no UV dos extratos ben- Yomanê e de fragmentos de casca de V. theiodora: Prance, 9607, 10125 zênicos e etanólicos da resina das e 20025. flechas e rapé dos índios Yoroanê Si02, metanol. c de fragmentos de casca de V. theiodora: Prance, 9607, 10125 e V. theiodoro resina dos flecho rapé (ou p6) 20025. Rf Rf Rf
extrato benzênico : À EtOH (nm) 275 e 308. max 0,60 (UV, azul) 0,60 (UV, azul) 0,60 (UV, azul) 0,00 o 0,47 (12, 0,00 o 0,47 (12, 0,00 o 0,47 (12, vapores) vapores) extrato etanólico : À EtOH (nm) 275 e 308. vapores) max
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CONCLUSÕES PRANCE, G. T.
Os extratos benzênicos e etanólicos da 1970 - Notes on the use of plant Hallucino- gens in Amazonian Brazil. Econ. Bot., resina extraída das pontas das flechas e rapé 24( 1) :62-68. dos índios Yomanê e dos fragmentos de cas- 1972a- Ethl1obotanical notes from Amazonian ca de V. theíodora (Prance, 9607, 10125 e Brazil. Econ. Bot., 26(3) :221-237, 14 ilust. 20025) apresentaram o mesmo desenvolvi- 1972b- An Ethnobotanical comparison of four mento em placas cromatográficas de sílica- Tribes of Amazonian Indians. Acta Ama- gel G (Merck) (quadros 1 e 2), assim como zonica, 2(2):7-27, 17 ilust. seus espectros no IV e no UV mostraram ser SCHULTES, R. E. superponíveis (quadros 3 e 4). Os dados obti- dos no UV foram idênticos aos de Agurell et 1954 - A new Narcotic Snuff from the Nor- alii (1969). thwest Amazon. Bot. Mus. Leafl. Harv. Também foi verificado que os extratos Uni\'., 16:241-260. elaborados mostraram a ausência de possí- 1969a- The Plant Kingdon and Hallucinogens. Part I. Bufi. of. Narcot., 22(1):1-56. veis misturas com outras espécies. 1969b- De Plantis Toxica.rüs e Mundo Novo SUMMARY Tropicale Commentationes. V. - Viro· la as an Orally Administered Hallucino- In this paper it is confirmed by thin layer gen. Bot. Mus. Leafi. Harv. Univ., 22(6): chromatography analysis (TLC) and infrared (IR) 229-240. and ultraviolet (UV) spectroscopy the double use 1970- The New World Indians and their Hal- of the bark from the myristicaceous Virola theio- dora (Spruce ex Benth.) Warb. in the hallucinoge- lucinogenic Plants. Morris Arbor. Bull., nic snuff and arrow poison prepared by indians 21(1) :3-14. called Yomanê from Tototobi river at the Brazilian SCHULTES, R. E. & HOLMSTEDT, B. Territory of Roraima. 1968 - Thc Vegetal Ingredients of the Myris· ticaceous Snuffs of the Northwest Ama.- BIBLIOGRAFIA CITADA zon. Rhodora, 70:113-156. AGURELL, S. ET ALIJ 1971 - De Plantis Toxicariis e Mundo Novo 1969 - Alkaloids in Certain Species of Virola Tropicale Conunentationes. VIII. Mis- and other South American Plants of cell~neous Notes on Myristicaceous Ethnopharmacologic interest. A o ta Plants of South America. Lloydia, 34 Citem. Scand., 23(3) :903-916. (1):61-78, 7 ilust.
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About this source
- Date
- 1974
- Type
- Academic Article
- Held by
- Maia, J. G. Soares, and William Antônio Rodrigues. "Virola theiodora como alucinógena e tóxica." Acta Amazonica 4, no. 1 (1974): 21-23. https://doi.org/10.1590/1809-43921974041021.
- Language
- Portuguese
- Region
- Brazil; Roraima; Northwest Amazon
- Text
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